Conferência MSD: imunoterapia em primeira linha para o CRCm

20/04/22
Conferência MSD: imunoterapia em primeira linha para o CRCm

A News Farma falou com o Prof. Doutor Dirk Arnold, diretor no Asklepios Tumor Center Hamburg, sobre a imunoterapia em primeira linha para CRCm, um dos temas abordados nas múltiplas conferências promovidas pela MSD Portugal. Leia a entrevista.

News Farma (NF) | Em 2021, foram detetados 10.321 novos casos de cancro colorretal em Portugal. Estes números exigem uma ação urgente. Neste sentido, a MSD Portugal organizou uma série de conferências na área dos tumores digestivos. Qual é a importância de discutir este tópico para uma melhor abordagem dirigida a estes doentes?

Prof. Doutor Dirk Arnold (DA) | É muito bom que a MSD Portugal e outros tenham lançado uma iniciativa deste tipo. De facto, a incidência está a aumentar em todos os países europeus e, em Portugal, a um ritmo acima da média. No entanto, o fator chave para um melhor prognóstico continua dependente da deteção precoce. Apesar de todos os avanços na área terapêutica para estes tumores e para as fases avançadas da doença, continua a ser importante aproveitar a oportunidade de se alcançar uma cura completa através do tratamento em fase precoce. Neste sentido, é importante valorizar a deteção precoce, ou convocar de forma consistente os indivíduos elegíveis para um programa de diagnóstico (na sua maioria endoscópico) – se alguns sintomas, ainda não específicos, ocorrerem.
Além disso, é igualmente importante trazer até aos médicos o panorama atual do conhecimento em investigação médica e avanços terapêuticos. Isto porque, com alguma frequência, alguns clínicos ainda têm reservas em avançar com uma terapêutica - tão antecipadamente – atuante na fase metastática, para salvaguarda dos seus doentes. Existe ainda o receio de se utilizar uma terapêutica que pode não ser tão eficaz e que é muito tóxica. E nem todos estão conscientes de que a situação mudou significativamente.

NF | De que forma a imunoterapia está posicionada como terapêutica em primeira linha, por oposição a outras terapias, tais como a quimioterapia?

DA | A imunoterapia, ou melhor, a imunoterapia específica de nova geração, os designados inibidores de checkpoint imunitário, é um método terapêutico eficaz para muitos tipos de cancros. Isto é de alguma forma lógico, porque o sistema imunitário é responsável pela monitorização do desenvolvimento de tumores e doenças malignas, independentemente da sua origem. No caso do carcinoma colorretal, no entanto, a situação é algo difícil, ou melhor, mais complexo do que na maioria dos tumores, uma vez que o grupo de doentes, nos quais o tumor é muito sensível à imunoterapia, é relativamente pequeno (cerca de 5-8 % de todos os doentes com cancro colorretal "espontâneo" e um número um pouco mais elevado no caso de cancro colorretal familiar e outros cancros). Nestes a imunoterapia é claramente mais eficaz do que a quimioterapia, sendo que esta última é ainda menos eficaz neste subgrupo. É evidente que isto representa o padrão terapêutico para estes doentes.

NF | Qual é o impacto da imunoterapia no tratamento destes doentes?

DA | Neste grupo de doentes, o tratamento com pembrolizumab, um dos inibidores de checkpoint imunitário, leva a uma melhoria significativa e clinicamente relevante no prognóstico dos doentes. Num grande estudo clínico global, com mais de 300 doentes (o que é um número considerável para este subgrupo relativamente pequeno), nos doentes com imunoterapia foi obtido um prolongamento significativo da sua sobrevivência livre progressão. Isto significa que a doença maligna pode ser controlada durante muito mais tempo com esta imunoterapia do que com quimioterapia. Além disso, verificou-se num maior número de doentes com uma redução da dimensão do tumor. E, também, a taxa de efeitos secundários foi significativamente mais favorável, em comparação com o grupo de doentes que fez quimioterapia. No entanto, este efeito significativo de melhoria não é evidente, dado que uma monoterapia altamente potente, associada a uma imunoterapia, mostrou uma eficácia mais elevada e um benefício global maior do que uma combinação de quimioterapia com anticorpos monoclonais, que é o standard of care.

NF | O que gostaria de destacar dos tópicos tratados na conferência?

DA | A conferência procurou discutir e questionar criticamente os progressos demonstrados num estudo. Estes resultados têm particular relevância, já que podem ter influência na prática clínica diária (também) em Portugal. Embora tenha já referido que este grupo específico de doentes é relativamente pequeno, também em Portugal, estima-se que haja cerca de 300 casos deste tipo de tumor por ano e temos ainda de transferir os resultados dos estudos para os nossos doentes. Além da situação dos dados clínicos, que discutimos de forma crítica, incidimos sobre a utilização na prática e troca de experiências. E, claro, quais os próximos passos a seguir, nomeadamente quais as associações mais capazes de alcançar melhores resultados no futuro. Se poderemos melhorar ainda mais a terapia. E se podem outros doentes vir a beneficiar de uma abordagem de imunoterapia do que apenas o pequeno subgrupo molecularmente definido, que atualmente consideramos ser particularmente sensível para o efeito.

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